Li vários haikais, tão lindos, sempre retratando uma bela imagem. E descobri que o haikai não é apenas um poema curtinho! Tive vontade de escrever também, e fui estudar um pouco de teoria literária, para poder fazer direito.
O Haikai, é uma forma poética de origem japonesa, com essência contemplativa e descritiva, que respeita basicamente quatro regras:
- tem 17 sílabas poéticas divididas em 3 versos, de 5, 7 e 5 sons.
- o tema é a natureza
- refere-se a um instante, com um clique da máquina fotográfica ao capturar uma imagem; retrata o momento presente, o agora, e não o que já passou
- possui um kigo: termo relativo a uma estação do ano, como primavera, verão etc, ou melancolia = outono; vivacidade = verão; flores, juventude = primavera; tranquilidade, reclusão = inverno e assim por diante.
Não há necessidade de colocar um título, nem letras maiúsculas. Eu prefiro a forma bem tradicional, respeitando a métrica, empregando o kigo e falando da natureza. O ideal é usar palavras simples, sem metáforas, e descrever aquele instante, sem a impressão subjetiva do poeta. O haikai clássico é um retrato. Escrevê-lo é capturar a essência do local, a união com a natureza e o contraste do efêmero com o eterno. Como neste:
Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.
Matsuo Basho (1644-1694)
Lembrando que a contagem das sílabas poéticas é diferente da contagem das sílabas gramaticais, que é própria da prosa:
Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.
Matsuo Basho (1644-1694)
Lembrando que a contagem das sílabas poéticas é diferente da contagem das sílabas gramaticais, que é própria da prosa:
in/se/gu/ra/ es/pe/ra /a /me/ni/na são 11 sílabas gramaticais.
E em in/se/gu/ra es/pe/ra a/ me/ni/na são 8 sílabas poéticas, pois a contagem termina na última sílaba tônica do verso. No caso menina é paroxítona, portanto "ni" é a última; e também por causa da elisão (quando uma palavra termina em vogal átona, ela se liga à proxima, caso esta se inicie com uma vogal ou com "h", conta-se uma sílaba só) e da crase (a fusão de dois sons vocálicos iguais). No haikai fica ao gosto do poeta: pode-se contar das duas formas. Eu prefiro a contagem das sílabas poéticas, tenho a impressão que assim o poema fica menos amarrado e, além de tudo, é mais... poético!
Adoro estudar essas coisas. Sempre curti literatura e foi no colegial e no cursinho que aprendi sobre métrica, poesia, prosa, tipos de discursos, narrações... Depois que entrei na faculdade, o que aconteceu muito mais às custas das minhas redações do que das provas de física e matemática, não estudei mais estas coisas especiais da língua portuguesa e hoje tento exercitar aqui o pouco que aprendi!
Mas, indo muito além de ser um exercício poético, o haikai fundamentalmente expressa em si a transitoriedade, salientada pelo emprego do kigo: assim como a estação do ano, tudo passa. O haikai retrata o aqui e agora, o presente. Escrever haikai é fazer o exercício de entrar em contato com o real, percebe-lo e compreendê-lo nas suas mais infinitas variedades e resumir de forma concisa aquele instante. Não deixa de ser um insight, um surto rápido e espontâneo de intuição, onde o poeta capta a imagem e tem o trabalho de colocá-la no papél de forma correta.
Não deixa de ser uma forma de meditação e de viver o aqui e agora.
Escrever haikai exige contemplação, que é buscar poesia, mistério, pequenas surpresas, nos acontecimentos mais simples e breves da vida, que tantas vezes passam despercebidos.
Hoje estou de plantão então, convenhamos, não tenho aqui na minha frente nada muito inspirador. Então, peguei algumas fotos da internet para contemplar... e deu nisso!
OM SHANTI!
noite de verão
rápidas estrelas cadentes
brilham nos olhos
mil gotas de chuva
escorrendo na janela
trazem solidão
cachoeira e rio
água pura em movimento
refrescando a pele
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