quinta-feira, 3 de setembro de 2009

NONSENSE: O bode pede as palavras do mestre


Hoje não vou me arriscar a escrever, devido ao bode em que me encontro. Então, deixarei por conta do mestre exteriorizar muito do que se passa oculto neste meu coração. Muito, mas ainda não tudo... Depois, desamarrando o bode, prometo TENTAR comentar o texto... se bem que... será? Comentar o que é absolutamente perfeito e extraordinário? Nah... Tá bom, talvez eu tente produzir alguma coisinha ínfima de interessante inspirada por este mestre:Vinícius. Sim, de novo! Viciei acho. Não. É que eu ainda não o esgotei todo. Esta fonte de inspiração, inesgotável!
Om Shanti!

Amigos meus (1965)

"Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.

Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! – porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós – eu próprio, quem sabe? – de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.

Eu me havia prometido não entrar este ano em curso – quando se comemora o 19640 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça – de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que – pombas! – não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente – e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.

Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! – que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso figado.

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

domingo, 23 de agosto de 2009

NONSENSE: "Decifra-me ou devoro-te"


"Sou tão misteriosa que não me entendo."
"O mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.Pois juro que a vida é bonita.”
Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

A cada manhã, ao tocar o chão frio, sobe pelos pés e corre pela espinha o calafrio que invade o coração. É a vontade de desvendar os segredos do mundo. Os segredos do outro e da natureza. O segredo de como se lida com o amor. O segredo de mim mesmo.

E ao ficar em pé, a verdade nua e crua vem bambear as pernas: o mistério não vai ser revelado.
Pelo menos, não por completo. Não poderia. Não nesta vida terrena.

É este mistério universal que dá o gosto da descoberta, que impulsiona na direção do auto-conhecimento. E portanto, guia todo o questionamento sobre a grandeza da natureza, sobre a imprevisibilidade da paixão, sobre a infinitude do cosmos e da vida.

O mistério de ser, estar, sentir. O mistério de permanecer, ou de não poder mais permanecer. A novidade que te pega de surpresa, crescida dentro de um espaço que se julgava tão conhecido: o eu, o meu coração, a minha existência... sempre continuará a ser um mistério. Para quem é e para o outro.

O porquê está longe de ser decifrado. Este enigma intrincado dentro do peito continuará guardando o caminho secreto da existência.

Portanto, supreenda-se comigo e me surpreenda, por favor. Ou venha juntar-se a mim a decifrar-me. Traga a coragem para vislumbrar o que tenho guardado aqui. E não esmoreça, por favor, não desista. Não há outra forma de sentir que a vida é tão bela, a não ser aceitando profundamente o mistério da vida.

Om Shanti!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

REMEMBERING: nos tempos da Booker


Eu devia ter uns sete anos, minha irmã cinco. Estávamos na minha tia, que morava numa casa pequena a dois quarteirões de nós. Adorávamos ir lá! Era um pessoal animado, famiglia italiana, todos falando alto e ao mesmo tempo. Minha tia sempre carinhosa dava uns abraços desses de espremer contra o peito, peito de zia italiana. Vire e mexe dávamos uma passadinha na casa dela, para um café, uma conversa, para saber das últimas. Desta vez, era fim de tarde e estávamos lá com meu pai. Provavelmente porque ele "deu uma passadinha" para falar alguma coisa com o meu tio. (Na verdade, não são tios. Meu pai é filho único. São primos-irmãos, que foram criados tão próximos do meu pai que, para mim e para minha irmã, sempre foram nossos tios). E conversa vai, conversa vem, foi ficando tarde. Tínhamos chegado de dia e quando saímos já era noite. Umas dez da noite, talvez. E devia ser sexta-feira. Se fosse no meio da semana, meu pai não teria nos deixado ficar até tarde, porque amanhã tem escola! Acho até que a gente deve ter comido alguma tranqueira por lá tipo, pizza, bolo, bolacha, refrigerante, coisa que só se come em casa de tia mesmo. Não lembro muito bem.
Mas estávamos a pé e tinha dado aquela esfriada, e a gente de shortinho anos 80. Camisetinha sem manga e conga. Meu pai nos pegou pela mão, uma de cada lado, e fomos andando apressados. Rapidinho, rapidinho que está frio... A cada passada larga que ele dava, eu e minha irmã dávamos duas passadinhas largas de criança. Não tinha ninguém na rua. A molecada que sempre estava jogando bola por ali já tinha ido para a cama, nenhum cachorro latia, o guarda noturno já encostado e tirando um cochilo na cadeira. Tinha um grilo cri...cri...cri.. Uma névoa. Tinha também uns bueiros por ali, e de vez em quando corria alguma ratazana para dentro dele. E um terreno baldio com pés de mamona balançando com o vento. Vinha pouca luz dos postes e das casas. Nossa, se bobear era mais tarde, então... Não lembro muito bem.
E eu medrosa, com medo de fantasma, de ladrão e com frio, apertei forte a mão do meu pai. Meu pai forte e protetor, naquele dia disse que, naquele passo e de mãos dadas comigo e com minha irmã, ele iria até o fim do mundo! Eu era pequena, mas já entendia as metáforas. O medo passou. E eu sempre me lembro disso ,até hoje!
***
Na mesma rua, a das crianças jogando bola, do terreno e dos bueiros, duas casas para baixo da minha, morava uma grande amiga. Passamos boa parte da nossa pré adolescência brincando juntas. Eu não era muito de bola, e ela, um pouco mais velha que eu, também já não ligava tanto. Era uma tarde aqui, outra lá, trocando papel de carta, adesivos, cortando revistas... E o dia em que ela ganhou um radio-toca-fitas do pai? Eu não dava sossego porque queria gravar as músicas que tocavam no rádio. E também não dava sossego para a Pimpa, a cachorrinha!... Não lembro bem, mas acho que foi quando ela terminou o colegial que a família se mudou para outro estado.
Os anos passaram, eu fui cuidando da minha vida aqui e ela cuidando da dela, lá. Foram poucas as vezes em que a vimos novamente, já crescidas, numa dessas visitas de fim de ano. Mas como o mundo é uma pracinha, e a internet tem esse lado lindo de colocar as pessoas em evidência e em contato, descobri recentemente que minha amiga de infância é fotógrafa! Fiquei encantada com a sensibilidade dela. E feliz, em saber que o tempo passa e as pessoas queridas crescem, não só no tamanho, mas na existência.
E aqui está, então, publicada uma das fotos da minha amiga-de-infância-que-mora-distante! (prometemos uma para a outra nos encontrarmos na sua próxima visita a são paulo)
ps: Debs, eu sei que na foto acima são as mãos de um casal, mas pensando nos velhos tempos da Booker, ela me fez lembrar deste episódio com meu pai!
OM SHANTI!

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Médica formada na Faculdade de Medicina do ABC em 1999. Fez residência em Pediatria na Escola Paulista de Medicina – UNIFESP até 2002.

Especializou-se em Homeopatia pela Escola Paulista de Homeopatia, atual ICEH, de 2003 a 2005.

Seu interesse em Ayurveda nasceu com o início das práticas de Yoga em 2002. Em 2007, fez o módulo I de formação em Yoga com Pedro Kupfer. Em 2008 concluiu a formação em Ayurveda na Clínica Dhanvantari em São Paulo, com Dr. Luiz Guilherme Corrêa Neto.

Na Índia, fez estágio em Ayurveda e Pregnancy & Baby Care na “School of Ayurveda & Panchakarma”, Kannur, Kerala, em Janeiro de 2009 e no Arya Vidya Peetam Trust, AVP Hospital, Coimbatore, em janeiro de 2010.

Atualmente trabalha na em seu consultório, atendendo a consultas de Pediatria e Puericultura, permeadas pela Homeopatia, pelo Ayurveda e pela sua bagagem de maternagem.

Escreve o blog PEDIATRIA INTEGRAL no Portal de maternidade ativa Vila Mamífera.

TODOS SOMOS UM